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Revoluções, Diásporas e Identidades

3 a 6 de setembro de 2007

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas - FFLCH
Universidade de São Paulo - USP

Av. Prof. Luciano Gualberto, 403

 

Tema: “REVOLUÇÕES, DIÁSPORAS E IDENTIDADES”

“Erguendo, como um nome, alto o pendão / Do Império, / Foi-se a última nau, ao sol aziago /
Erma, e entre choros de ânsia e de presago / Mistério. / Não voltou mais.
(Pessoa: 1983, 16).

Há 510 anos, três naus partiam do Restelo em busca das especiarias que levariam Portugal a se constituir como império econômico por um breve período. Os desdobramentos da diáspora que aí se inicia representaram uma grande revolução, responsável, primeiramente, por redefinir a identidade portuguesa, e, depois, por marcar de maneira indelével o imaginário português e a constituição de um império mirífico. Passados 310 anos, em 1807, uma outra nau saía às pressas de Lisboa, levando a bordo uma corte que fugia atabalhoada das tropas de Napoleão, que já estavam às portas da cidade. Com ela se foi o pendão do império, que não mais voltou. Quando, quatorze anos depois, D. João VI retorna para Portugal, convertido no primeiro rei constitucional do país, deixa para trás um Brasil que não mais seria colônia, mas parte do Reino Unido. Poucos anos depois, o herdeiro da coroa, D. Pedro, proclama a independência de nosso país. Se a partida da família real, há 200 anos, marca um importante momento de ruptura na história imperial portuguesa, indica, também, um novo começo, em que a cultura em língua portuguesa passa a ser nitidamente fruto de um diálogo entre várias identidades, caracterizado por um constante ir e vir em que a diversidade terá um papel decisivo.

Portanto, 1497 e 1807 são marcos importantes para Portugal na medida em que o primeiro inaugura a grande diáspora do povo português pelo mundo e o segundo redefine o centro de poder dessa diáspora, fazendo com que o eixo Portugal-Brasil ganhe um estatuto político até então impensado. Desse modo, não só os espaços coloniais são identitariamente redefinidos pelo processo colonial, como também Portugal se vê na contingência de se repensar de forma sistemática. O ta-ssi-yang-kuo, isto é, “grande reino do mar do Oeste”, como Portugal fora denominado por Matteo Ricci quando chegou a Pequim em 1601, surge no poema “S. Gabriel” de Camilo Pessanha como uma condição perdida e ilusória. Pessanha clama a S. Gabriel: “Vem-nos guiar sobre a planície azul / Vem-nos levar à conquista final / Da luz, do Bem, doce clarão irreal. / Olhai! Parece o Cruzeiro do Sul!”. No início do século XX, portanto, a auto-imagem de Portugal encontrava-se definitivamente associada às colônias e em especial ao eixo Portugal-Brasil. Em 1974, com a Revolução dos Cravos, tudo irá mudar politicamente, mas os vínculos históricos e culturais que se estabeleceram no decorrer de meio século entre Portugal e seus espaços coloniais perdurarão de um modo ou de outro.

Enquanto professores de Literatura Portuguesa no Brasil, julgamos que o episódio da partida da família real há duzentos anos assinala um momento privilegiado para discutirmos vários aspectos centrais de nossa prática enquanto pesquisadores e docentes. A tensão entre colonizador e colonizado, o jogo de alteridade que essa relação pode gerar, a maneira como as imagens individuais, locais, regionais e nacionais se deslocam e se reconstituem, o modo como o imaginário se sedimenta em meio a tais conflitos, tudo isso se coloca no horizonte de nossas reflexões num momento com esse. Ao vivermos numa época em que as identidades se dissolvem, as diásporas se multiplicam e as revoluções parecem ter perdido a face com a qual as identificávamos, pensar esse passado relativamente recente, quando as identidades nacionais ganhavam força, as diásporas eram patrocinadas pelos governos e as revoluções eram bem demarcadas será certamente muito produtivo para entendermos o que vivemos agora e o que podemos ou queremos esperar do futuro.

As relações entre um país colonizador e seus espaços colonizados são, sem dúvida, sempre muito complexas, repletas de violência, acordos, traumas e de toda sorte de aproximações e enfrentamentos. Nossa tarefa é refletir sobre o modo como, no âmbito da representação literária, essa complexidade se transforma no decorrer da história, procurando compreender como aquilo que foi vivido como trauma possa deixar de o ser e, inversamente, como aquilo que fora vivido como identidade pode torna-se o novo pomo da discórdia.

Para efetivar esse debate, propomos os seguintes sub-temas:

Anacronismos, prefigurações, revoluções: Partindo de um viés histórico, privilegia-se com esse subtema o tratamento do tempo sob a óptica das transformações, seja no sentido de fora do tempo, seja concebida como antecipadora do tempo, ou ainda com a idéia de uma transformação radical do e no tempo, que levará a uma ruptura econômica, social ou política.

Escritas do sujeito e da nação: A preocupação com a constituição do ser, quer quanto ao sujeito, quer quanto à nação, sobressai como um dos grandes temas da modernidade. A busca de sentido para o indivíduo e para a coletividade torna-se sistemática e apoia-se na idéia de que “escrever-se” é o modo possível para a definição do ser.

Gênero e diversidade: Podemos ler o conceito de gênero na concepção exclusivamente literária ou ainda na óptica que enfoca os processos envolvidos na construção cultural, social e lingüística que, de forma naturalizada, diferenciam homens e mulheres. Em ambas as acepções cabe a idéia de respeito às diversidades.

Texto, memória, história: valorizando uma perspectiva diacrônica, importa pensar algumas persistências e apagamentos; reapropriações textuais; as marcas das lembranças e dos esquecimentos, bem como ressignificações do passado e da tradição.

Viagens, olhares e paisagens: propõem-se reflexões sobre os deslocamentos, as partidas e as chegadas; os lugares e seus entornos, as práticas de reconhecimento e de estranhamento do outro e de si próprio; e as experiências do olhar e do contato.