Chamada

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A complexa relação cultural entre Brasil e Portugal tem na coletânea de textos Do Brasil: fascínio e miragem, de Eduardo Lourenço, uma importante síntese, em que se exploram as diferenças de perspectiva que os dois países têm acerca de si próprios e do outro quando o assunto é a experiência histórica comum e seus desdobramentos. Componente central para o delineamento de tal diferença seria, para o crítico, a predominância, no Brasil, de um olhar projetivo, um interesse pelo seu vir-a-ser enquanto coletividade, na mesma proporção que Portugal adotaria um olhar retrospectivo, ancorado no passado. Em um dos textos que compõem o volume – significativamente aquele que versa sobre a celebração dos 500 anos de existência do Brasil –, Lourenço identifica a ausência de Portugal no horizonte da efeméride brasileira, a cujo propósito ele observa: “É óbvio que aqueles quinhentos anos se referem à História, à inscrição do Brasil num quadro temporal que o ‘descobridor’ partilhava, na convicção de ser um quadro universal. Como comemorar essa inscrição sem o inscritor, seja ele qual for? Todavia, a fiar-nos no relógio onde conta o seu tempo próprio – aliás, amputado da sua cronologia indigenista – é assim que o Brasil se deseja comemorar. Sozinho, numa autonomia histórica e ontológica, como se fosse filho do Sol ou da espuma do mar, Apolo ou Vênus das nações, imagens míticas que tão bem quadram à sua portentosa sedução.”
Este diagnóstico do crítico poderia servir de explicação ao que se passou recentemente com o projeto do Ministério da Educação brasileiro para a reformulação do ensino básico, no qual não se incluía a literatura portuguesa no quadro de conteúdos. No entanto, quando se atenta para a reação dos vários setores da sociedade brasileira a tal supressão, responsável por seu reexame, vê-se o grau daquela complexidade, o quão difícil é assumir-se que o afastamento entre os dois países, iniciado com a proclamação da independência do Brasil, redundou num radical apagamento de Portugal do campo de interesse dos brasileiros.
Assim é que o ensino e a pesquisa da produção literária portuguesa mantêm-se constantes e consistentes no âmbito acadêmico brasileiro, o qual vem funcionando como rico ponto de encontro das experiências literárias em língua portuguesa, contribuindo para a manutenção do “fascínio” e demonstrando que as diferenças de perspectiva não são necessariamente um entrave para a troca de experiências culturais as quais, por sua vez, ajudam-nos a refletir sobre a eficácia em pensar-se o texto literário como produto derivado de um contexto geográfico rigidamente definido, submetido à ideia de nacional.
Tendo por base as complexidades aqui brevemente expostas, em sua XXVI edição o Congresso Internacional da ABRAPLIP propõe o mapeamento do ensino e da pesquisa da literatura portuguesa no Brasil e no mundo, para tanto acolhendo trabalhos voltados para a literatura portuguesa, bem como aqueles que a coloquem em diálogo com outras literaturas, vernáculas ou estrangeiras.

 

Linhas temáticas

Literatura portuguesa em países de língua portuguesa
Literatura portuguesa em países de língua estrangeira
Literatura portuguesa e outras literaturas